Crítica: O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

Ronaldo D`Arcadia
cinemacomrapadura.com.br

Recentemente assisti a um filme incrível de Terry Gilliam que ainda me faltava. “Brazil” é pitoresco do início ao fim. Seus cenários são grandiosos e estranhos, assim como seus personagens. Tudo parece sujo e caótico e, apesar de não trazer semelhança alguma com nosso país (a não ser a burocracia acéfala), é belo ouvir o tema de “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, soar poderosa nos sonhos do personagem principal.

Este é Terry Gilliam, inusitado por natureza. O americano fundamental para o grupo inglês Monty Python. O realizador de obras que chamam atenção por sua estranheza, coragem e, na maioria dos casos, pela qualidade inegável. Ele realizou loucuras como “Medo e Delírio”, “Os Bandidos do Tempo”, “Os 12 Macacos” e “O Pescador de Ilusões”.

Em seu novo filme “O Mundo Imaginário do Dr.Parnassus”, Gilliam parece se soltar ainda mais, apostando em um visual que, mesmo digital, lembra em muita sua plástica característica. Finalizando o filme aos trancos e barrancos após a morte de um de seus atores principais – o australiano Heath Ledger -, o diretor consegue mais uma vez imprimir sua mente insana nos frames de seu longa.

A trama começa nos apresentando um grupo saltimbanco de teatro que se apresenta para um público já descrente na arte de se contar histórias. Eles convidam sua sempre pequena plateia a participar do show e conhecer um mundo de sonhos que se encontra logo ali, atravessando o espelho. O velho Parnassus (Christopher Plummer) e sua trupe, formada por sua filha Valentina (Lily Cole), o jovem Anton (Andrew Garfield), e o pequenino muito consciente Percy (Verne Troyer), um dia descobrem, por acaso, um misterioso homem pendurado pelo pescoço em baixo de uma ponte.

Após socorrerem o pobre indivíduo, percebem que o mesmo não se lembrava quem era. Ele então é batizado de Tony (Heath Ledger, Johnny Depp, Jude Law, Colin Farrell). O sujeito é de uma lábia incrível e seu passado começa a se revelar de forma gradativa, apresentando fatos que possam colocar a credibilidade do esquecido em cheque. Mas para Parnassus, Tony é de grande ajuda, já que ele o auxilia em muito na sua aposta feita com o diabo Mr. Nick (Tom Waits). O prêmio da peleja é a garota Valentina, uma “Sweet Little Sixteen”, como diria Chuck Berry. Parnassus é um velho apostador, que já foi ludibriado algumas vezes pelo caricato Mr.Nick. Mas agora, com uma disputa renovada, ele tem a chance de reaver sua pequena para sempre.

Como todo filme de Gilliam, uma trama simples ganha contornos apoteóticos devido à excentricidade de seus personagens, diálogos e cenas. Muito bem escrito e detalhado, a obra é de uma beleza imensa e traz elementos já utilizados pelo diretor em outros filmes: muita steadycam, lentes angulares, fotografia crua, cenários e elementos animados, enfim, artimanhas que fazem seu estilo ser único. Já o diferencial são os efeitos visuais inusitados que recheiam o mundo imaginário do “além do espelho” (um CG muito mais ousado do que os utilizados em “Os Irmãos Grimm”). Um mundo feminino feito de sapatos gigantes e jóias, cabeças vivas feitas de balões e pedras, escadas gigantes que são usadas como pernas de paus são exemplos do absurdo de impossibilidades típicas de um humor nonsense de primeira qualidade, apoiada por uma tecnologia usada sem restrições.

O time de atores também se destaca, principalmente Heath Ledger. O jovem ator que interpretou o cowboy gay do filme “O Segredo de Brokeback Mountain”, deu vida ao Coringa mais celebrado de todos os tempos em “Batman: O Cavaleiro das Trevas” e já trabalhou com Gilliam interpretando Jacob Grimm, mostra todo seu potencial no filme em questão. Ótimo trabalho vocal, carisma e personalidade eram seus pontos fortes. Os amigos de Ledger (Depp, Law, Farrell), que se propuseram a finalizar o filme em nome do falecido, doando o cachê para a filha do ator, também se destacam. O interessante é analisar que por vezes eles interpretam Ledger interpretando Tony, o que seria uma forma de homenagem simbólica.

Lily Cole está muito bem como a temperamental e inquieta Valentina, que novamente traz a tona o complicado tema “relacionamento com garotas jovens” (como no estranhíssimo “Contraponto”), revelando um Gilliam mais uma vez ousado. Um dos destaques do time de coadjuvantes é Tom Waits, como o canastrão e maquiavélico Mr. Nick. Em sua primeira a cena, o diabo se apresenta como uma espécie de jornalista (para ofensa dos mesmos) e, apesar de ser um grandíssimo cretino, ele sempre se sai bem.

“O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” na realidade é uma viagem ao criativo subconsciente de seu criador Terry Gilliam. Este não é um filme comum, assim como todos os outros filmes de Gilliam. É preciso enxergar além do óbvio para captar o humor ácido e descentralizado do diretor, ou seja, um gosto refinado para uma obra destrambelhada. Mesmo não parecendo a mistura perfeita, tudo funciona muito bem. Essa é a especialidade de Gilliam, contrariar a lógica de praticamente tudo.

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Uma resposta

  1. “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” é rico em referências literárias. Na verdade, é um elogio à poesia, a começar pelo tema: a releitura de “Fausto” do Goethe. Acho que é o que mais se assemelha a “As Aventuras do Barão de Munchausen”, um filme injustamente esquecido de Terry Gilliam.

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